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Economia

A corrida pelo primeiro unicórnio da favela atrai políticos e empresários a Paraisópolis

Publicado dia 24/11/2021 às 14h22min
A comunidade de Paraisópolis, em São Paulo, apresenta seu candidato ao mercado financeiro: a ‘startup’ de logística Favela Brasil Xpress, que capta 1,3 milhão de reais por uma espécie de “vaquinha virtual” com potencial de retorno financeiro

Convidados tocam o sino simbólico para celebrar a entrada da empresa Favela Brasil Express no mercado financeiro, em Paraisópolis, São Paulo - Foto: Leila Beltrão

 

 

Foi sob a batida do funk Baile de favela que a empresa de logística Favela Brasil Xpress tocou o sino para celebrar sua entrada no mercado financeiro. Convidados ilustres como a empresária Luiza Helena Trajano e o apresentador Luciano Huck dividiram o palco patrocinado pela Gerdau com o prefeito Ricardo Nunes (MDB) na última sexta-feira, durante a realização do Slum Summit 2021, em Paraisópolis, na zona Sul de São Paulo. No evento, digno da comemoração de uma oferta pública de ações (IPO no jargão financeiro), a cantora Sarah Roston animou os participantes antes do hino nacional e da oração Pai Nosso, puxada pelo pastor do funk Igor Alexander, que ecoou pelo salão, apesar das máscaras obrigatórias para proteger o público contra a covid-19. Começava ali a Bolsa das Favelas.

“Também queremos nosso touro de ouro”, brincou Gilson Rodrigues, presidente do bloco de líderes G10 Favelas, que organizou o evento da última sexta-feira, em referência à polêmica gerada na capital paulista pela exótica cópia do símbolo de Wall Street posicionada em frente à Bolsa de Valores de São Paulo (B3) no centro da cidade. Em resposta, recebeu risadas discretas. O culto ao touro não parece ter chegado à periferia. Ali, a corrida é outra: atrair investidores de olho na criação de um “unicórnio” ―termo utilizado no mercado financeiro para designar startups avaliadas em pelo menos 1 bilhão de dólares. “A Favela Brasil Xpress tende a ser um unicórnio. Ela se propõe a desbloquear o CEP das favelas no e-commerce brasileiro”, defende, otimista, Rodrigues.

A startup de logística, começou a atuar em abril para resolver um problema antigo, agravado pela crise sanitária: em oito territórios de comunidades de São Paulo, quando se compra pela internet, a entrega acaba dentro de um centro de distribuição, não chega às casas dos moradores. Ou porque não há um endereço formal cadastrado ou porque empresas se recusam a entrar, alegando uma questão de segurança. A solução foi criar uma estrutura de entregas, formada em sua maioria por moradores da região, para que as compras cheguem ao destino final. “Nos últimos seis meses, tivemos 170.000 entregas, em uma carga que gira em torno de 40 milhões de reais nesses oito territórios. A favela quer consumir, quer estar no digital”, diz o presidente do G10 Favelas.

Com o sucesso, a empresa se tornou a primeira a ter cotas oferecidas na Bolsa de Valores das Favelas, que nasce a partir da necessidade de uma integração entre os moradores de comunidades com investidores: “40% da população de favela quer empreender e daí [surge] a oportunidade de trabalhar com investidores anjos”, explicou Rodrigues. Para que o projeto dê certo, precisa acessar recursos que costumam escoar para outra área da metrópole. Apenas 10 quilômetros separam Paraisópolis do rico centro financeiro da capital paulista, representado pela avenida Faria Lima. O público, porém, é totalmente diferente. Nada do tradicional desfile dos homogêneos faria limers ―em sua maioria homens jovens, brancos e endinheirados. Na comunidade, mulheres de todas as idades, em sua maioria negras, ocupavam o espaço do Slum Summit. A motivação também é outra. Sai de cena a promessa de lucro pelo lucro. Os negócios sociais desenvolvidos a partir de iniciativas de empreendedores da favela prometem soluções para problemas reais.

Participantes do evento Slum Summit 2021 cantam o hino nacional Paraisópolis, São Paulo. Divulgação: scctv.net.br

Participantes do evento Slum Summit 2021 cantam o hino nacional  em Paraisópolis, São Paulo. Foto:Leila Beltrão

 

‘Crowdfunding’ de investimento

A “oferta pública” da Favela Brasil Xpress tem como meta captar 1,3 milhões de reais para expandir os negócios das atuais sete bases localizadas em São Paulo e no Rio de Janeiro para 25 no próximo ano. Em 2023, o objetivo é chegar a 50 bases em seis Estados. “O Favela Brasil Xpress tem hoje 51 funcionários com carteira assinada. Em seis meses, queremos ter 600 funcionários”, conta Rodrigues.

A captação de recursos será feita por meio de um aplicativo da plataforma Divi-hub. Nascida no Vale do Silício em 2019, essa empresa trabalha com a oferta de valores mobiliários (um tipo de título financeiro) de empresas pequenas. “Focamos muito em economia criativa. Um dos projetos que está em nossa plataforma é o Stand up favela, que vai ser um reality show com moradores de comunidades. Foi aí que tivemos contato com o Gilson e o G10 Favelas”, conta Ricardo Wendel, CEO e fundador do Divi-hub.

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) define esse modelo de operação como “crowdfunding de investimento”, nada mais do que uma “vaquinha virtual” utilizada para financiar determinada causa, ideia, projeto, produto ou negócio. A diferença em relação a uma doação é que em troca do financiamento as empresas conferem aos apoiadores títulos que dão direito de participação no negócio. Trata-se de um investimento de risco, cujo retorno depende do esforço do empreendedor. “O investidor é remunerado ou por distribuição de lucros, ou de uma maneira mais simplificada, com a própria receita. Neste caso, se determinada empresa tem uma receita de 30.000 reais por mês e ofertou 10% do seu negócio, ela tem que distribuir 3.000 por mês”, afirma Wendel. A Favela Brasil Xpress optou por uma distribuição trimestral de 5% de sua receita aos seus apoiadores. É possível investir a partir de 10 reais.

Construindo pontes

Murilo Duarte, mais conhecido como Favelado Investidor, durante evento em Paraisópolis. Foto: Leila Beltrão

O influenciador Murilo Duarte, mais conhecido pela alcunha de Favelado Investidor, explica que “empresas que se propõem a trazer benefícios para a sociedade acabam chamando a atenção de investidores”. Como exemplo, ele cita a captação de 17,5 milhões de reais realizada recentemente por cooperativas ligadas ao Movimento dos Trabalhadores sem Terra (MST), com a emissão de um Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA), uma modalidade de título de renda fixa utilizada para financiar o produtor ou a cooperativa agrícola, que tem como lastro a economia real, ou seja, a própria produção. “O investidor olha com bons olhos o agronegócio. Agora estão vendo que o potencial da favela também é gigantesco, só falta oportunidade.”

Trajano, do conselho de administração do Magazine Luiza, há tempos entendeu esse recado. Aproveitou o evento para divulgar o programa de trainee exclusivamente para pessoas negras da rede de varejo. “Levamos muita paulada da primeira vez [que o programa foi lançado], mas agora é um espetáculo”, afirmou. Ela destaca que seus trainees têm melhor nível intelectual, falam diversos idiomas e estudaram nas melhores faculdades. Mas a maioria estava desempregada ou ganhava de 20% a 30% a menos do que outros profissionais. A revista Forbes Brasil também anunciou a primeira lista de empreendedores das favelas, que será lançada em 2022.

O Favelado Investidor, ele mesmo um dos destaques da lista “Under 30″ da Forbes Brasil em 2020, já parece acostumado a fazer pontes entre realidades opostas. Seus canais nas redes sociais já alcançam 7 milhões de pessoas com informações sobre educação financeira e investimentos. Duarte explica que há um mito de que as pessoas precisam de muito para investir. “Quando comprei meu primeiro livro, que era sobre Tesouro Direto, entendi que a partir de 30 reais já dava para investir”, afirma. “Claro que ninguém ficará milionário de um dia para o outro. Precisamos ser realistas.” Ele defende que não há classe social para o investimento, apesar de ele ainda estar extremamente concentrado nas camadas mais ricas da população. Dentre seus seguidores, estão desde um ex-presidiário, hoje investidor, a um MC que ganha dinheiro com música. Mas o consultor alerta que é preciso romper com a imagem de que tudo o que a favela tem para oferecer é problema. Por isso considera iniciativas como a do G10 Favelas importantes: “É um pontapé inicial para o mercado financeiro”.

Atualmente há diversos movimentos para unir iniciativas sociais ao mercado financeiro. Não se trata de uma tendência, mas de uma necessidade. “O mercado financeiro está muito descolado da realidade. E não dá para ficar nessa bolha que não enxerga um palmo na frente. Estamos fazendo o dinheiro trabalhar para reduzir as desigualdades”, explica João Paulo Pacífico, CEO da Gaia Investimentos, que estruturou a captação do MST. Para ele, o risco de se investir em um mercado de cunho social é o mesmo que o de qualquer investimento em empresas comuns. “O risco está muito menos ligado a quem está recebendo o dinheiro e muito mais à estrutura da operação, independentemente se é uma operação mais social ou não”, afirma. A Gaia prevê lançar novas operações de cunho social em 2022, inclusive no mercado imobiliário. E não é a única que constrói pontes entre o capital e a causa social.

ExpoFavela

O empresário Celso Athayde, fundador da Central Única das Favelas (CUFA) e CEO da Favela Holding prepara para abril de 2022 a realização da ExpoFavela. Serão três dias de evento no hotel Sheraton, no World Trade Center, numa área nobre na zona Sul de São Paulo, voltado para unir “a favela e o asfalto” e discutir como o empreendedorismo pode trazer respostas aos problemas sociais. “Fui em muito fórum social onde o debate sobre economia de impacto acontece sem a participação de quem sofre realmente o impacto”, afirma Athayde. “Queremos unir a empreendedora que vende pamonha na favela e que criou o seu próprio modelo de gestão e deu certo com empresários como Abílio Diniz. Um lugar para a favela ouvir o asfalto e o asfalto ouvir a favela.”

Athayde lembra que, há 25 anos, ele era chamado de mercenário por falar de negócios na favela. Agora, o nome favela agrega valor aos negócios. A Favela Holding conta hoje com 20 empresas, a maioria delas pioneiras em seus setores. Até o final do ano, três novos negócios serão agregados ao portfólio: a Favela Filmes, empresa de audiovisual, responsável pela produção de todos os vídeos das ações da CUFA e da Favela Holding, e que, em breve, lançará grandes produções documentais focadas na realidade das favelas brasileiras; a IO diversidade, focada em diversificar o mercado de trabalho e o quadro das empresas, por meio da inclusão; e a Favela Money, plataforma de pagamentos e compras on-line, voltada para o público das favelas.

O empresário prepara ainda o lançamento de um fundo, o que deve acontecer entre janeiro e fevereiro, mas prefere não dar muitos detalhes da operação. “Será um fundo de valor bastante significativo, mas estamos agindo com cautela, para evitar o risco de termos mais recursos do que projetos para investir”, explica.

O lançamento do fundo e da ExpoFavela acontece num momento de mudanças na estrutura da CUFA. “Das 5.000 favelas que temos hoje em todo o país, pelo menos 4.000 devem virar CNPJs concorrentes da CUFA. Não buscamos monopólio, precisamos de concorrência”, afirma. Athayde prevê que o “grande boom de negócios nas favelas ainda está por vir”.

Disputa ideológica “Aqui é uma mina de ouro. Tudo o que se investe, cresce”. É assim que Ismael Silva Maia, funcionário do setor de logística da Favela Brasil Express, define o potencial dos negócios nas comunidades. Por vezes, a disputa dessa mina de outro gera controvérsias. Foi o que aconteceu com a parceria realizada entre o G10 Favelas e o grupo de mídia negacionista Brasil Paralelo. Rodrigues se defendeu das acusações de que estaria colaborando com o grupo. Segundo ele, a parceria nasceu após a solicitação de um morador que queria acesso à plataforma, mas não tinha dinheiro. “Fomos atrás e conseguimos 500 assinaturas. A decisão de acessar esse conteúdo é do morador. Todo mundo tem a condição de decidir, de raciocinar o que é certo ou errado. Por vezes me parece que querem que o morador da favela seja de direita ou de esquerda. Eu quero que ele seja livre”, afirmou. “Eu defendi a vacina. Eu não sei nem quem é Olavo de Carvalho”, disse em relação ao guru bolsonarista, referência para os ideiais defendidos pelo Brasil Paralelo. 

 

Fonte: MARINA ROSSIREGIANE OLIVEIRA Divulgação: scctv.net