O cancelamento de leilões de gasolina e diesel da Petrobras nesta semana acendeu um alerta vermelho para o mercado, que vê riscos ao abastecimento nacional de combustíveis, enquanto há um cenário indefinido de estoques e prazo curto para importações, disseram as distribuidoras nacionais e fontes do mercado. Imagens: REUTERS/Adriano Machado© Thomson Reuters
Em ofício enviado ao governo e à reguladora ANP com o assunto “riscos ao abastecimento nacional”, o sindicato que representa Vibra, Raízen e Ipiranga (Sindicom) pede que sejam tomadas providências para que a Petrobras retome os leilões de combustíveis.
No documento, datado da véspera, o Sindicom afirmou que as suas distribuidoras têm observado um aumento relevante da demanda por produtos, porém relatam cortes nas cotas de fornecimento e negativa de pedidos adicionais nos meses de março e abril por parte da Petrobras.
“O cenário global atravessa um dos choques mais severos da história recente, elevando preços e intensificando a disputa internacional por suprimentos”, afirmou o Sindicom em nota, em referência aos efeitos da guerra no Golfo Pérsico, que tem danificado infraestrutura do setor de petróleo e elevado os preços por conta interrupções no transporte pelo Estreito de Ormuz.
“No plano doméstico, a ausência de diretrizes claras na política de preços e a incerteza no atendimento integral dos pedidos pela Petrobras — somadas à instabilidade no calendário de leilões e ao cancelamento intempestivo de certames — comprometem severamente a previsibilidade operacional e o planejamento estratégico dos agentes de distribuição”, afirmou o documento.
O presidente-executivo da Federação Nacional das Distribuidoras de Combustíveis, Gás Natural e Biocombustíveis (Brasilcom), que representa mais de 40 distribuidoras regionais, Abel Leitão, também manifestou preocupação com o abastecimento de diesel, indicando que os preços defasados da Petrobras desincentivaram importações.
“Ausência de paridade de preços com produtos importados, cortes de pedidos adicionais e suspensão de leilões da Petrobras indicam tensão no abastecimento em meio a cenário geopolítico”, afirmou Abel à Reuters.
Cerca de 25% do diesel consumido no Brasil é importado.
Apesar de ter elevado em 11,6% o preço médio do diesel A (puro) vendido a distribuidoras após a disparada dos preços internacionais do petróleo com os conflitos no Oriente Médio, a petroleira permanece vendendo o combustível mais comercializado do país abaixo da paridade de importação, o que tem desestimulado a importação por outros agentes.
O preço médio do diesel da Petrobras está cerca de 70% abaixo da paridade de importação, segundo cálculos da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom).
Sérgio Araujo, presidente da Abicom, afirmou que o cenário de abastecimento para março ainda não traz tanta preocupação, mas quando olha o “line up” de navios importados de diesel para abril, ele ainda está muito “magro”. Ele ponderou, no entanto, que o cenário pode mudar.
Procurados, Petrobras, governo e ANP não responderam imediatamente a pedidos de comentários.
Na véspera, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, afirmou a jornalistas que a companhia suspendeu os leilões de diesel e gasolina “pela necessidade de reavaliar a todo momento o estoque disponível”. “Para que a gente não entregue tudo num dia e falte no dia seguinte”, afirmou ela.
MEDIDAS “INEFICAZES” DO GOVERNO
Enquanto isso, especialistas e fontes do setor avaliam que as medidas tomadas até agora pelo governo para garantir o abastecimento são ineficazes, com foco em controlar preços.
O governo cortou impostos federais sobre os combustíveis e lançou um programa de subsídio ao diesel, que ainda precisa ser regulamentado. Nesta semana, tem pressionado os Estados para reduzir o ICMS sobre combustíveis.
“As medidas do governo de oferecer subsídios — agora tem a discussão de desoneração de ICMS… na nossa visão é muito mais uma vontade ou um desejo de conter alta de preços, mas são um pouco ineficazes no sentido de evitar falta de produto”, disse o sócio-diretor da Raion Consultoria, Eduardo Oliveira de Melo.
Melo apontou que, nas últimas 72 horas, o cenário tem se agravado, com clientes que têm contratos de fornecimento, inclusive que prestam serviços essenciais, como transporte de passageiros, tendo volumes cortados e pedidos fracionados.
Uma fonte de uma distribuidora afirmou que o governo parece estar mais agindo para que a Petrobras consiga realizar seus reajustes sem impactar o consumidor, do que de fato endereçando o problema.
“Essa notícia de que pediram aos Estados para desonerar o ICMS, é só para mais uma vez salvar a Petrobras, para ela subir o preço”, disse essa pessoa, ressaltando que há regras que impedem que a petroleira tome prejuízos para atender a pedidos do governo.
Bruno Cordeiro, analista de Inteligência de Mercado da StoneX, afirmou à Reuters que a principal preocupação atualmente é com abril, principalmente por uma mudança de rota de navios que estavam vindo ao Brasil, mas decidiram ir para outros mercados que estavam pagando mais.
“(A defasagem dos preços) acaba dificultando a internação do derivado em um período que temos a colheita de soja…”, disse Cordeiro.
Por conta do período de safra de alta demanda, há “um receio de que a gente veja disrupções regionais causadas por esse cenário de menos diesel chegando ao Brasil no próximo mês”, acrescentou ele.
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Por Marta Nogueira – Divulgação: scctv.net.br/Rádio Giramundoweb/@Giramundoweb/@SCCTV3/(10) Pinterest





