Torcedores argentinos acompanharam de praças públicas a seminfinal contra a Inglaterra. © Márcio Resende/RFI
Na partida contra o seu maior rival, a Argentina repetiu o placar de 1986, superando a Inglaterra por 2 a 1 numa nova virada épica. O roteiro de sofrimento até os minutos finais tornou a vitória ainda mais valiosa, levando milhares de argentinos à euforia em praças e avenidas de todo o país. A final de domingo (19) contra Espanha vale o tetracampeonato, mas o triunfo contra a Inglaterra é o título de justiça simbólica que mais mexe com o emocional dos argentinos. Em Atlanta, os jogadores admitiram que a questão patriótica entrou em campo.
Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires – Se a seleção argentina não tinha enfrentado nenhuma potência do futebol nem adversário de maior peso até a semifinal da Copa do Mundo, a partida contra a Inglaterra foi a melhor exibição da Argentina até aqui, fazendo com que milhares de argentinos soltassem um grito de vitória que mais parecia um grito de guerra.
“Chegar a uma final, para nós, é muito valioso, mas este sentimento de ganhar da Inglaterra é muito mais importante do que se tivéssemos jogado contra outro país. Com a Espanha, não temos uma rivalidade como a que temos com a Inglaterra. Contra a Espanha, será uma partida que queremos ganhar, mas não traz uma carga emocional. Para os nossos corações, é muito forte uma vitória contra a Inglaterra em parte por uma competição esportiva, mas ainda mais por uma questão geopolítica”, compara à RFI o torcedor Daniel Rossotti, de 55 anos.
O triunfo argentino sobre a Inglaterra evocou valores de orgulho e honra, sobretudo pela Guerra das Malvinas, de 1982, até hoje uma ferida na identidade nacional, como se parte do mapa e, consequentemente, do ser argentino estivesse incompleto. Por isso, vencer da Inglaterra significa um grito de desabafo patriótico para além do futebol.
“É puro coração jogar contra a Inglaterra. Mais do que estarmos na final, a nossa maior alegria é termos ganho da Inglaterra”, sintetiza Daniel.
Milhares de torcedores reuniram-se numa área ao ar livre do bairro de Palermo diante de telões gigantes. “Quem não pula é um inglês”, cantavam os fanáticos em ondas de pulos para impulsionar a seleção.
“Este é um sentimento de dupla emoção, de dupla alegria. Por um lado, chegar à final; por outro, ganhar da Inglaterra, reivindicando o ser argentino e a luta pelas Malvinas. Agora, no domingo, vamos ser campeões mundiais novamente”, afirma à RFI Lorena Santacruz, de 38 anos.
“Além do futebol, estavam em jogo muitas feridas do passado. A mais recente é em relação às Malvinas. Mesmo que o (técnico Lionel) Scaloni dissesse que não devíamos misturar o futebol com as Malvinas, é inevitável misturá-las. Demonstramos que somos mais”, orgulha-se o torcedor Nicolás Adi, de 32 anos, em declarações à RFI.
Drama e esperança
Fiel ao roteiro de drama e sofrimento das vitórias argentinas, o gol da Inglaterra, abrindo o placar, silenciou a multidão. O golpe só não foi maior porque restava mais de meia hora de jogo.
“Senti que podíamos reverter o placar, como fizemos com o Egito. Pensei que não era algo novo. Já passamos por isso. Aliás, sempre passamos por isso. Podíamos virar e viramos”, conta Nicolás.
“Fiquei tensa por um tempo, mas logo pensei que podia ficar tranquila porque a Argentina iria com tudo para reverter aquela desvantagem”, descreve Lorena.
“Para a Argentina, até o último minuto temos a esperança de virar o jogo. Em nenhum momento desistimos. O argentino, em muitas situações é assim na vida: até o último momento continua na luta. Quando o juiz apita, acaba. Mas até que o apito não toque, pomos toda a energia, toda a garra e entregamos tudo no campo de jogo. Esse é o ser argentino”, orgulha-se Daniel.
Nova virada épica
Porém, Julia Pinal, de 59 anos, preferiu não arriscar só com a confiança e recorreu às superstições como a maioria dos argentinos. Sobre uma bandeira argentina, com a figura de Diego Maradona passando uma bola, como um legado a Lionel Messi, Julia colocou uma réplica da taça do mundo de 1986 e uma foto de Maradona naquele campeonato mundial, quando a Argentina venceu a Inglaterra por 2 a 1. O altar improvisado procurava evocar uma ajudinha do santo Maradona, dando agora uma nova “mão de Deus”. Para completar, usou uma máscara do Messi como se assumisse outra identidade.
“O altar é uma superstição. Usei a máscara do Messi em 2022 até ganharmos o Mundial. E agora, cada vez que a Argentina está em apuros, ponho a máscara do Messi. Então, continuo com a superstição. Trouxe também a taça, a imagem do Maradona, elementos daquele jogo de 1986. E o resultado do jogo foi o mesmo. Escolho acreditar. No domingo, estarei aqui com todo o ritual”, explica Julia à RFI.
Com tanta mandinga, não há inglês que aguente. A seleção argentina reverteu o placar.
“Não tive medo porque sabia que, em algum momento, o gol viria. Já estamos acostumados a sofrer desde o princípio. Ganhamos e tchau Inglaterra. E agora vamos ganhar a taça”, acredita Julia.
Muitos dos que vieram até este pulmão verde de Buenos Aires seguiram até o Obelisco da Avenida 9 de Julho, ponto de encontro de todas as vitórias da seleção argentina. A maré humana ocupou esta avenida considerada a “mais larga do mundo”. Bandeiras, buzinas, faixas, cantigas e bandas musicais improvisadas mantiveram as celebrações até de madrugada.
Nacionalismo em campo
No campo de jogo, em Atlanta, assim que a partida terminou, os jogadores argentinos abriram uma bandeira na qual aparecia a mensagem “As Malvinas são argentinas”, um lema frequente no país desde a guerra de 1982.
A FIFA tinha proibido bandeiras, camisetas e qualquer símbolo com referência às Ilhas Malvinas ou à guerra de 1982 nesta partida contra a Inglaterra, mas os próprios jogadores quebraram a proibição e poderiam receber uma sanção.
A imprensa britânica, como o jornal The Sun, condenou o gesto, classificando-o como “Arrogância argentina”.
“Mostraram um cartaz repugnante e havia exaltados flameando o deplorável cartaz que reivindicava a soberania das ilhas britânicas”, criticou o tabloide.
Embora o técnico argentino, Lionel Scaloni, tenha tentado minimizar os componentes extracampo de jogo, afirmando que “só se tratava de uma partida de futebol”, os jogadores argentinos acabaram revelando como, no fundo, viveram o confronto com a Inglaterra.
“Somos conscientes desta parte triste da nossa história e isso nos dói. Jogamos por todo o nosso povo. Embora quiséssemos transmitir que fosse apenas uma partida de futebol, somos conscientes de que não era assim e que era muito importante para o nosso país”, admitiu o jogador Leandro Paredes, concluindo que As Malvinas “sempre serão argentinas”.
O jogador Lautaro Martínez, autor do segundo gol, também admitiu que “para eles não era mais uma partida”. “Era uma partida especial”, indicou.
Lisandro Martínez disse que “a equipe não poderia falhar ao povo argentino”.
O treinador de futebol e ex-combatente das Malvinas, Omar de Felippe, publicou um agradecimento aos jogadores argentinos:
“Há partidas que transcendem o futebol. Como Veterano das Malvinas, hoje só quero agradecer-lhes pela enorme alegria e pela imensa carícia na alma. O esporte nunca muda a história, mas, às vezes, ajuda a curar emoções que continuam muito vivas”.
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Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires – Divulgação: scctv.net.br/Rádio Giramundoweb/@Giramundoweb/@SCCTV3/(10) Pinterest





