>>> Escute nossa rádio enquanto ler o artigo <<<

relançamento do Genius veio em momento de virada geracional

Como o avanço dos jogos online agravou a crise da Estrela

Tecnologia Geral

Rainha absoluta dos lares brasileiros nos anos 1980 com o Genius, Autorama e o Banco Imobiliário, a Estrela foi atropelada por uma mudança geracional, sobretudo a partir da década passada, quando crianças passaram a pedir tablets, jogos para celular ou assinaturas de streaming em vez de brinquedos em datas como aniversários e Natal.

Pelo menos, essa é uma das razões (não a única, mas um agravamento) que levaram o Grupo Estrela a protocolar o pedido de recuperação judicial na quarta (20), de acordo com os documentos apresentados pela fabricante de brinquedos na Justiça de Minas Gerais, que foram consultados pela reportagem.

No pedido de recuperação judicial, a Estrela admitiu que não consegue pagar dívidas que somam R$ 109 milhões, pede proteção judicial contra os credores e ganha tempo para apresentar um plano de reestruturação. Neste período, que antecede a apresentação do plano, as dívidas não podem ser executadas

Em linhas gerais, se os credores aprovarem o plano, a empresa continua funcionando e paga as dívidas em condições renegociadas. Se não, a recuperação judicial pode ser substituída por um processo de falência.

Abertura comercial foi o primeiro tiro

A crise da Estrela começou em 1993. A abertura comercial do governo Collor derrubou o faturamento da empresa em 50% em um único ano. O quadro de funcionários, que havia superado 10 mil empregados, foi cortado para 1.500. A empresa nunca mais voltou ao tamanho que tinha.

Dívidas com impostos também foram se acumulando desde então. Segundo os autos do processo de recuperação judicial, em setembro de 2025, a Estrela ainda fechou acordo com a PGFN (Procuradoria Geral da Fazenda Nacional) para quitar R$ 747,8 milhões em dívidas fiscais com origem nos anos 1990.

Trata-se de um passivo que foi sendo carregado no balanço por mais de três décadas. A empresa aderiu a programas de refinanciamento, mas nunca conseguiu eliminar os problemas tributários.

É nesse contexto que a transformação digital dos hábitos de consumo infantil precisa ser lida, segundo a inicial protocolada na Justiça, não como estopim, mas como mais uma camada de pressão sobre uma estrutura já comprometida

Quando a criança migrou de tela

A petição inicial dedica passagens reveladoras à questão dos hábitos de consumo. O documento reconhece que “nas últimas décadas, o mercado infantil passou a disputar a atenção do público com aparelhos eletrônicos, plataformas digitais, jogos online, aplicativos e novas formas de entretenimento”, impondo à indústria tradicional “um esforço permanente de adaptação”.

O problema, segundo a empresa, é que o esforço de adaptação chegou numa hora ruim

Relançar clássicos, modernizar jogos tradicionais, desenvolver produtos licenciados, firmar parcerias com influenciadores e inserir elementos eletrônicos nos brinquedos “exigem investimento contínuo em desenvolvimento, marketing, licenciamento, pesquisa e inovação, justamente em momento no qual o grupo já enfrentava margens pressionadas pela concorrência importada e pelo elevado custo financeiro”, segundo os autos.

A empresa criou a Estrela Beauty, linha de cosméticos infantis, desenvolveu a Editora Estrela Cultural, dedicada a livros infantojuvenis, abriu lojas oficiais em marketplaces como Shopee, Amazon e Mercado Livre.

A Estrela apostou no público “kidult”, expressão inglesa para adultos que consomem brinquedos por nostalgia, com relançamentos de Falcon, Pogobol e Autorama Ayrton Senna. Nada disso reverteu a situação.

A petição também atribuiu culpa à Selic, a taxa básica de juros da economia, como vetor específico de agravamento para um modelo de negócio estruturalmente sazonal: a receita se concentra no Dia das Crianças e no Natal, mas os custos com insumos, mão de obra, estoque são distribuídos ao longo do ano inteiro. Em ambiente de crédito caro, esse descasamento virou problema de caixa, segundo os documentos.

O que vem pela frente

A empresa que chegou a 2026 com dívidas de R$ 109 milhões ainda emprega cerca de 500 pessoas diretamente, número que pode chegar a mil no segundo semestre, com a produção para o Natal.

A petição argumenta que se trata de “crise conjuntural e transitória” e que se trata de “crise conjuntural e transitória” e que a viabilidade é “patente”. Esses termos carregam significado jurídico.

No modelo brasileiro, se os credores não acreditarem que a empresa tem “viabilidade” para superar a crise “transitória” nem aceitarem abrir mão de uma parte do que têm a receber, o caminho que resta é o da falência

História de Graciliano Rocha – Divulgação: scctv.net.br/Rádio Giramundoweb/@Giramundoweb/@SCCTV3/(10) Pinterest

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *